A cidade dos meus avós

Não lembro quantos anos eu tinha, mas certamente eram menos de dez anos. Fomos minha mãe, meu pai e eu em um ônibus que atravessaria umas dez horas de estrada rumo ao interior do Paraná. Ao final do trajeto, pegaríamos mais um ônibus que levaria uma hora para chegar ao nosso destino: a cidade em que moram os meus avós.

Era uma cidade de interior sem nada demais. Um centrinho com praça e comércio, uma igreja matriz, uma praça na saída da cidade. Muitas árvores, chácaras e fazendas ao redor da cidade. Gente simples, boa e simpática na cidade, do tipo que te diz bom dia na rua sem te conhecer. E, além de tudo isso, meus avós, que eu amo.

Laranjinhas colhidas do pé, na cidade dos meus avós

Laranjinhas colhidas do pé, na cidade dos meus avós

Todos os anos fazíamos essa viagem. Meu pai pegava trinta dias de férias e passávamos trinta dias nessa cidade do interior do Paraná, na casa dos meus avós. Eu fui crescendo e esta viagem se tornou uma tradição. Eu amava. Era como se um mês por ano eu morasse em outro lugar. Eu esquecia completamente como era São Paulo e como era a rotina lá. Na época não havia internet, então o desligamento da minha vida em São Paulo era completo.

Posso dizer que a cidade em que vivem meus avós foi a minha primeira grande viagem e aquela que despertou meu interesse para viajar. Em outras palavras, aquela que abriu minha mente para viajar. Era um aguardado evento anual.

Muitos anos a frente, já num contexto de vida com estudo e trabalho, o papel de parede do meu computador era o portal da cidade de Gramado, que eu tinha uma imensa vontade de conhecer. Era um algo motivacional para o qual eu olhava todos os dias enquanto estudava.

Há alguns anos, fui a Gramado e, ao passar pelo portal, lembrei do meu papel de parede. Antes de Gramado, conheci algumas cidades novas e, depois de Gramado, muitas e muitas outras cidades. Em algumas dessas cidades, conheci gente interessante. E nesse negócio de viagem, eu descobri que uma parte muito interessante é justamente cruzar essas pessoas interessantes que eventualmente aparecem no nosso caminho.

Uma dessas pessoas interessantes me disse: “eu não me importo tanto com o lugar, com a cidade em si. O que mais me importa é conhecer pessoas legais, fazer amizades. São estas memórias de viagem que eu quero levar, de ter conhecido gente bacana pelo caminho”. Às vezes, é bem por aí mesmo: não é só o lugar, são as pessoas.

Nesse negócio de viagem, quando desprendido de tudo que é cotidiano, às vezes você repensa algumas coisas. Algumas vezes, você vê certas coisas com inédita clareza. Às vezes, ainda, nada de especial acontece, nenhum grande insight... Viagens são assim: um mar aberto de possibilidades.

O lago e o sol se pondo ao fundo, na cidade dos meus avós

O lago e o sol se pondo ao fundo, na cidade dos meus avós

Entretanto, esse negócio todo de viagem começou lá na cidade dos meus avós. Uma cidade bem no interior do Paraná.

Ao longo dos anos, aquela tradição anual de ir para lá se manteve. Nem sempre eram trinta dias, como no começo, mas todo ano íamos para a cidade dos meus avós. E, felizmente, continuamos indo.

A cidade foi mudando e ficando mais bonita. As praças ficaram mais bem cuidadas e foi feito um lindo lago próximo à saída da cidade, onde as pessoas fazem caminhada e ficam sentadas no gramado. Com o tempo, fizeram aparelhos de ginástica, banquinhos… e cada ano que eu vou lá, há alguma coisa diferente na cidade.

De certa forma, ainda é minha viagem preferida. Claro, o mundo possui coisas fantásticas e cada lugar pelo qual eu passo me descortina belezas que enchem os olhos. A melhor viagem é sempre a próxima, dizem. E no momento em que eu estou escrevendo este texto, vejam que curioso: a próxima viagem é justamente para a casa dos meus avós. A melhor viagem é sempre a próxima, não é?

As luzinhas de Natal na cidade dos meus avós

As luzinhas de Natal na cidade dos meus avós

Há gente que pode não aceitar tanta subjetividade, e com sua razão. Como comparar uma cidadezinha do interior do Paraná com Londres, Roma ou Paris?

Realmente, na teoria não há comparação.

Mas em minha defesa digo que no caminho pra casa dos meus avós há uns campos tão bonitos quanto aqueles que eu vi da janela do trem que ia de Roma para Florença. E, mais importante e incontestável: esta cidadezinha do interior do Paraná é a única no mundo em que estão os meus avós.

Impossível não ser minha viagem preferida.

Sou servidor público, paulistano e fã de Beatles. Viajar me dá motivos para escrever e escrever me dá desculpas para viajar. Tenho um calendário em casa e um na mesa do trabalho, no qual planejo feriados, férias e viagens.

2 comentários sobre “A cidade dos meus avós

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