Como entender o ritual Kecak de dança balinesa

 

Um dos programas imperdíveis de Bali é assistir a um ritual de dança balinesa chamado Kecak (pronuncia-se Kechak!) que acontece em diversos templos de Bali. Trata-se de uma performance sem qualquer instrumento musical. No lugar, aproximadamente 70 homens imitam os sons dos instrumentos musicais, narrando uma história com efeitos sonoros.

O nome Kecak provém justamente do canto típico entoado pelos homens – cak – cak – que se repete milhares de vezes, acompanhado do movimento das mãos e braços, como se uma onda de energia atravessasse o grupo. Interessante destacar aqui que o desenrolar da história é contado através do próprio canto entoado pelos homens. Eles estão ordenados em círculos e simbolizam muitas coisas: as árvores na floresta, o exército dos macacos, o anel de fogo, o círculo mágico que protege Sita.

Como? Quem é Sita? Bom, vamos à trama.

O Kecak origina-se de um drama que não é totalmente auto-explicável. Isto é, você pode assistir a dança e até gostar, e mesmo assim não saber o que está acontecendo. Por isso, algum conhecimento extra ajuda e ilumina de entendimento a escuridão dos atos. Ah sim, aqui não se trata de spoiler, mas de contextualização da trama em si.

A dança tem início com o pôr-do-sol no templo de Uluwatu, um dos mais bonitos de Bali. Antes de começar a dança, uma chama de fogo é acesa no meio do palco, realçando o caráter ritualístico da trama, que será encenada em quatro atos.

Kecak

Preparativos para o início da Kecak – ritual de dança balinesa.

O Kecak é uma mistura do ritual Sanghyang (que visa purificar uma vila afetada por epidemia) com episódios do Ramayana, um épico hindu escrito em versos pelo poeta Valmiki. O herói é Rama, encarnação do Deus hindu Visnu, que vem para a Terra derrotar o demônio Ravana. Rama vive na floresta com sua esposa Sita. O demônio Ravana fica apaixonado por Sita e tem um plano para capturá-la, porém, ela está protegida pelo círculo mágico, isto é, os homens que entoam o canto. Como eu já disse, eles representam muitas coisas conforme o desenrolar da história.

Para capturar Sita, o demônio Ravana envia um servo, chamado Marica, disfarçado de servo dourado. Sita fica encantada com o animal e pede que o herói Rama a deixe ficar com o bichinho. No momento em que Rama se distancia dos olhos de Sita, aparece Ravana para capturar Sita, porém o círculo mágico dos homens a protege. Ravana volta na sua tentativa de captura, porém agora disfarçado de um velho homem santo. Ele pede para Sita um pouco de água, e neste momento, ela achando que ele fosse uma pessoa boa, põe os pés fora do círculo mágico e imediatamente é capturada pelo demônio Ravana.

Kecak

O desenrolar da Kecak e a multidão assistindo ao espetáculo.

Rama, o herói, sai à procura de Sita, e para isso, conta com a ajuda de Anoman, o macaco branco e comandante do exército dos macacos. Na sequência temos o quarto e último ato. Com as informações acima já é possível entender a trama e o desfecho final que, obviamente, não irei contar aqui.

A Kecak que assistimos foi no templo de Uluwatu, e dura por volta de 1 hora. Mas, há também performances que acontecem no templo de Tanah Lot ou em alguns templos de Ubud (para saber o que fazer em Ubud, clique AQUI).

A Kecak representa vários símbolos da cultura balinesa, como, a luta entre uma divindade boa e uma ruim, a presença do animal macaco, a energia atribuída a objetos inanimados, etc. É um belo espetáculo estético que põe a mulher no centro da beleza e de toda contenda. Neste sentido, não é tão diferente do épico Ilíada, em que Helena, a mulher de Menelau, dá origem à Guerra de Tróia e a uma peleja de 10 anos. A mulher, símbolo máximo da beleza terrena, é universal na sua capacidade de conduzir o fio que rege os homens.

Com as informações acima, acredito que o leitor, tendo a oportunidade, irá aproveitar melhor o ritual de dança Kecak, e entrar na história como se passasse por um portal. O vento varrendo a pequena arena lotada de turistas, com a fumaça da queima do tradicional óleo de coco balinesa sendo espalhada, e a noite pintando de sombras os gestos minimalistas de Sita, tragicamente bela, por sinal, fará deste um momento mágico de sua viagem a Bali.

Um mineiro que gosta de histórias, e acha que escrever e ler é o melhor passatempo.

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