A história e os detalhes da Ponte Vecchio de Florença

 

A Ponte Vechio (ponte velha) de Florença é, de fato, a mais antiga da cidade. Antes do atual formato, havia no mesmo lugar uma ponte de madeira que foi arrasada pela enchente do ano de 1333. Se voltarmos mais no tempo, porém, devemos reconhecer que a ponte já tinha uma importância histórica incrível, pois foi nela que, em 1° de maio de 1283, Beatriz cumprimentou Dante pela primeira vez, fazendo surgir dali um amor eternizado na obra “A Divina Comédia”.

Ponte Vecchio, com sua arquitetura ousada para a época, encanta pela mistura dos arcos medievais, que sustentam lojas de joias e o corredor vasariano.

Mais tarde, sob o comando do arquiteto Taddeo Gaddi, ela foi reconstruida em 1345, ganhando o atual formato, com 3 arcos, ao invés de 5. A explicação é que com 3 arcos haveria mais vazão, pois a distância entre as colunas seria maior, evitando que os detritos de uma eventual enchente viesse a derrubar a ponte.

Como a história demonstra, a inovação de Taddeo Gaddi funcionou, porque a ponte Vecchio desde então permanece no mesmo lugar, atravessando os séculos com várias modificações, mas com o formato original de quando foi criada. Hoje, a ponte é repleta de comércios (joalherias), com um pequeno vão no centro. Mas nem sempre foi assim. No passado, ao invés da nobre arte dos ourives, a ponte abrigava vários açougues (chamados na época de beccai). Imagino o ar tenebroso dos odores de restos de animais abatidos sendo jogados rio abaixo. A facilidade faz o homem? Conta-se até que a origem do nome bancarrota advém dos comerciantes de então, que se não conseguissem pagar as dívidas, tinham a mesa (banco) quebrada (roto) pelos fiscais do Governo. A prática era chamada “bancarotto”.

Ponte Vecchio

Lojas de joias ao longo da Ponte Vechio.

Uma das coisas mais interessantes da Ponte Vecchio chama-se ‘corredor vasariano’ (obra do arquiteto Giorgio Vasari), também chamado ‘percurso do príncipe’. Em 1565, no casamento de Francisco I com Giovanna da Áustria, para evitar que os convidados tivessem que atravessar a Ponte Vecchio com odores horríveis de carne e legumes apodrecidos (imaginem aquilo no verão), a solução foi construir uma via aérea que ligasse de um lado o Palazzo Vecchio, sede de governo, e de outro o Palazzo Pitti, residência da família Médice, passando pela Ponte Vecchio. Assim, fazendo algumas ‘passagens’ entre os edifícios, ligou-se o Palácio Vecchio ao terceiro andar da Galleria Degli Uffizi. Ao lado desta, construiu-se a enorme arcada ao longo do rio Arno, que se liga à Ponte Vechio. Sobre a ponte e ao lado das lojas, construiu-se um enorme corredor, criando um aspecto bastante singular. Na sequência, várias construções foram sendo interligadas por ‘pontes’ sobre as ruas até chegar ao Palazzo Pitti.

Ilustração do Corredor Vasariano. Fonte: https://organictuscany.org/corridoio-vasariano/

Mas, no ano de 1593, Ferdinando I, irmão de Francisco I, decidiu extinguir o mercado de carnes e legumes que havia na Ponte, elegendo como substituto o comércio de joias e afins, tal como a encontramos hoje. Em sua visita a ponte Vechio, observe os nomes das várias lojas e bancas de joias e relógios, estes remontam a séculos, sendo um negócio de família de muitas gerações. No meio da ponte, há uma abertura que interrompe a sequência de lojas, neste espaço há um busto de Benvenuto Cellini, considerado o ourives e escultor mais importante de Florença. Apesar de toda a multidão, este é o lugar perfeito para uma foto sobre o rio Arno. Neste lugar, se olhar para cima, o visitante observará o corredor vasariano, com janelas que foram inauguradas em 1860 para a visita do Rei Victor Emanuelle II.

A Ponte Vechio resistiu, ou foi poupada, mais tarde, à ação dos alemães na Segunda Guerra Mundial. Dizem que Hitler, que a visitou e conheceu em 1938, ordenou a explosão da ponte, mas a ordem não foi cumprida por Gerhard Wolf, cônsul alemão em Florença durante a ocupação nazista, num momento em que o amor à arte se sobrepôs à violência, não permitiu que tal sacrilégio ocorresse. Todas as pontes de Florença foram destruídas, menos a Ponte Vecchio. A atitude de Gerhard hoje pode ser comprovada, pois em 2007 foi colocada uma placa lembrando a atitude deste em gratidão ao patrimônio histórico cultural.

Um mineiro que gosta de histórias, e acha que escrever e ler é o melhor passatempo.

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