Viajar transforma?

Viajar transforma. Abre a cabeça. Conecta a pessoa ao mundo. Tudo isso pode ser verdade ou não. Ser uma pessoa viajada hoje virou um status cool: tanto na blogagem de viagem como em conversas informais muito se diz sobre a maravilha que é viajar, contam-se casos de pessoas que deram a volta ao mundo, que transformaram a vida com as viagens, etc e tal. Tudo muito válido, nem tudo verdadeiro.

Não é um post com verdades, apenas um post reflexivo. 😛

A primeira viagem que eu fiz pra Europa foi um acontecimento grandioso na minha vida. Enfrentar países desconhecidos, ter contato com estrangeiros, testar meu inglês na prática, tudo era muito novo, tudo era desafiador e incrível. Era a viagem que tinha tudo pra mudar minha vida.

O belo edifício da Prefeitura de Hamburgo ao anoitecer

O belo edifício da Prefeitura de Hamburgo

E não mudou nada.

Voltei o mesmo. Apenas levei minha mesmice pra passear e atravessar o oceano. Fui e voltei com ela. Não me entenda mal, tive experiências muito legais: aprendi a andar de bicicleta por causa dessa viagem, estudei o inglês com mais afinco por causa dela, aprendi coisas novas, enfrentei um planejamento de viagem como nunca antes tinha feito. Então, sim, aprendi coisas novas. Mas aquela transformação, aquela coisa que eu lia sobre em vários lugares… não rolou.

Bicicleta enfeitada por uma flor em Amsterdam

Amsterdam e seus clichês

Entretanto viajar continuava sendo bom e fazendo bem. Então valia a pena, ainda que não trouxesse toda a transformação que eu tinha inventado na minha cabeça (ou esperado por).

Daí eu busquei um próximo passo: viajar sozinho. Fui para Santiago do Chile só. O desajuste inicial, o receber de troco uma nota falsa, um primeiro dia vendo que o espanhol não era tão simples como parecia me fizeram pensar “o quê que eu to fazendo aqui?”. No segundo dia a sensação passou e gradativamente vieram experiências melhores.

Hostel Che Lagarto, em Santiago do Chile

Hostel Che Lagarto, em Santiago do Chile

Acostumei-me ao espanhol, travei conversa com desconhecidos na rua, nos monumentos, no hostel. Uma argentina passando a noite ali no saguão do hostel (não havia quartos disponíveis pra ela ou ela não tinha dinheiro pra mais uma diária, não lembro) começou a conversar sobre Córdoba, chegou um argentino, um brasileiro e noite adentro fomos conversando. E uma simples conversa marcou em muito minha primeira viagem solo. Aquele desajuste inicial, o sair da zona de conforto, isso era o que eu estava procurando!

E depois dessa viagem solo surgiu uma segunda, por mais tempo e pra mais longe.

Fui pra Itália. Estudei um pouquinho de italiano por conta. Levei para esta viagem palavras básicas, meu inglês e minha mochila. Conheci pessoas de vários lugares, fiz amizade com gente da Armênia, da Coréia, da Palestina! Lembro de ter ficado com raiva de Veneza porque não fiz amizade com ninguém lá. E lembro de chegar em casa mais ou menos eu, mais ou menos outro. Com a sensação de independência que eu carreguei nas ruas de Roma e de Florença. Com a sensação de que viajar é algo além, algo que realmente pode transformar.

Fonte na Piazza Barberini, à noite, em Roma

Piazza Barberini, em Roma

Mas essa sensação não é conquistada somente indo longe.

Anos antes de qualquer das viagens de que eu falei, quando eu viajei pra Curitiba com um amigo, enfiado no meio de livros e livros estudando, minha cabeça abriu, algo surgiu que não havia: conhecer lugares novos. A viagem foi fantástica, a cidade e as pessoas acolheram muito bem a mim e a meu amigo e eu pensei: “isso é muito legal!”. Gostei tanto que cogitei morar ali. E percebi que a vida não é necessariamente apenas o caminho que você faz da casa pro trabalho e vice-versa. A vida não é umas saídas de vez em quando. Até pode ser se você estiver feliz, mas não precisa ser.

Museu Oscar Niemayer, um dos ícones de Curitiba

Museu Oscar Niemayer, um dos ícones de Curitiba

Lembro da primeira vez que eu vi o mar. As águas do mar indo e voltando era ver Deus e a força da natureza em movimento. Indo e voltando, indo e voltando. Demorei mais de vinte anos pra ver o mar e poucos segundos pra me apaixonar por ele. As águas do mar têm um encanto que me deixam meio tonto, mal comparando é como estar ébrio.

A viagem tem significado único pra cada pessoa. Você precisa viver aquilo. Ver um monte de gente na internet fazendo viagens fantásticas pode passar a ideia de que ir praquela cidadezinha do interior, ou pro Nordeste brasileiro, ou mesmo ir pra Europa são coisas banais, porque você vê um monte de gente fazer.

Mas não é banal. É fantástico!

Cada viagem é única e o impacto que isso pode ter na sua vida, ou em determinado momento que você esteja vivendo, é imensurável. Esse impacto é cheio de variáveis, pode acontecer quando você menos espera ou na viagem que você menos espera. Por isso às vezes vou para lugares que nem me atraem muito a priori. Não sei o que eu posso descobrir lá. E só vou saber indo.

Praia da Lula Paraty

Praia da Lula

Viajar pode deixar a pessoa mais mais humilde ou mais prepotente; mais aberta ou não; mais extrovertida ou não; mais culta ou não; mais conectada ou não; viajar pode transformar ou não. Tudo depende. Se você busca transformação através da viagem, ela pode acontecer, sim. Dali a algumas dezenas de quilômetros da sua casa ou a um oceano de distância. Não encontrei bem a receita ainda e continuo viajando e buscando, conhecendo o mundo que Deus nos deu a conhecer.

Se encontrar a receita da transformação e quiser compartilhar, sou todo ouvidos.

Sou servidor público, paulistano e fã de Beatles. Viajar me dá motivos para escrever e escrever me dá desculpas para viajar. Tenho um calendário em casa e um na mesa do trabalho, no qual planejo feriados, férias e viagens.

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